O DESPERTAR DA CONSCIÊNCIA: Como a Incerteza nos Impulsiona a Viver

Harald Dinelly

5/8/20244 min ler

Homem com brilho no peito, entre um portal etéreo e natureza exuberante
Homem com brilho no peito, entre um portal etéreo e natureza exuberante

Em minha vida profissional, como gestor público, professor, consultor e, acima de tudo, um eterno aprendiz, vivo mergulhado em processos, planejamentos e na busca por resultados. Mas, como todo ser humano, também sou um profundo questionador das grandes indagações da vida. Recentemente, tive uma reflexão bem interessante que me levou a pensar sobre a consciência, o que nos torna "nós" e, claro, o temido (ou talvez nem tanto) "nada" que vem depois. É um tema que sempre me fascinou, especialmente considerando minha formação em Administração e Gestão Pública, áreas tão focadas no tangível, mas que paradoxalmente me levam a ponderar sobre o intangível da existência.

Essa busca por algo além do tangível ganhou para mim um novo e profundo significado durante a pandemia de Covid-19. Em janeiro de 2021, fui um dos muitos a contrair o vírus. Após dez dias de tratamento em casa e outros dez em enfermaria hospitalar, restou aos médicos uma única e drástica alternativa: a intubação. Eu, que sempre fui relutante a essa possibilidade, sabendo pelos estudos preliminares do Comitê de Enfrentamento do COVID-19 em Parintins que a taxa de sobrevivência para casos como o meu no Brasil era de apenas 20%, e com minhas comorbidades de pressão alta, sobrepeso e uma angioplastia recente, tive que ceder. Eu mesmo pedi para ser entubado. Passei, então, 20 dias entubado na UTI em coma induzido, e foi nesse período que vivi uma experiência bastante incomum. Ao acordar do efeito dos medicamentos, não reconheci o local onde estava. Tenho plena certeza de ter vivido aqueles dias em outra enfermaria, lembrando perfeitamente de ter sido tratado por médicos, enfermeiras e cuidadores que nunca mais vi. Diversas situações que testemunhei não foram confirmadas por nenhum profissional após meu retorno. Essa experiência foi a centelha que despertou um Harald diferente, muito mais espiritual e menos religioso, abrindo minha mente para buscar outros conhecimentos e experiências que vão além do físico, do material.

Converso muito sobre isso e percebo que é uma angústia comum: como nossa mente, que está sempre processando, sentindo e criando, pode sequer conceber a ausência total de tudo? É como tentar descrever uma cor para alguém que nunca viu ou explicar o silêncio para quem nunca ouviu. Simplesmente não temos a referência sensorial ou conceitual para isso. Minha própria percepção, no fundo, me leva a crer que existe algo além desta vida. É uma intuição, uma sensação que transcende a lógica e o que podemos provar cientificamente. Talvez seja a alma, o espírito, ou quem sabe, uma nova dimensão da consciência. Essa crença é um pilar para muitos e, para mim, uma esperança que acalento.

É nesse ponto que as religiões e a espiritualidade desempenham um papel fundamental. Elas oferecem, há milênios, narrativas e sistemas de crenças que buscam preencher essa lacuna existencial, propondo um propósito maior para a vida e uma continuidade para a consciência além da matéria. Para muitos, esses caminhos trazem conforto e sentido, transformando a incerteza do "nada" em uma promessa de transcendência ou um plano divino. Independentemente da fé individual, o impacto dessas visões na forma como lidamos com a finitude e encontramos significado é inegável, moldando a esperança e a perspectiva de milhões.

No entanto, a grande questão é: e se eu estiver errado? E se, como a ciência aponta com base no que podemos observar, a consciência for um produto do cérebro e, ao parar, tudo simplesmente se desfaça no "nada" que tanto nos intriga? Essa incerteza, por mais que minha intuição aponte para o "além", é poderosa. Ela me traz para a realidade e me faz refletir. É justamente essa dose de incerteza que, paradoxalmente, me empurra para uma conclusão muito clara e prática: o sentido da vida é, fundamentalmente, viver.

Se não temos plena certeza do que vem depois, e se nossa consciência é um presente tão complexo e maravilhoso, por que não dedicar toda a nossa energia e foco para experienciar cada momento desta existência? Para mim, "viver" não é apenas respirar. É muito mais do que isso. Significa experimentar plenamente — sentir as alegrias, os desafios, as paixões, as belezas naturais da minha Parintins, as complexidades da gestão pública e a satisfação de um projeto bem executado. Significa aprender e evoluir — desde meus tempos como professor e tutor, passando pela consultoria, até minha atuação Prefeitura de Parintins, a busca por conhecimento e crescimento é constante. Significa conectar-me com as pessoas — construir laços, compartilhar experiências, contribuir para a comunidade e ver o impacto positivo do meu trabalho e da minha vida nas pessoas ao meu redor e nos alunos que passaram por mim. E significa criar e deixar um legado — seja na elaboração e execução de leis, planos e projetos, atuando em áreas ambientais, culturais e sociais, ou no aconselhamento empresarial, busco sempre deixar algo de valor, me dedicando plenamente às atividades que me envolvo.

Essa perspectiva se alinha perfeitamente com o conceito de Carpe Diem, de "aproveitar o dia". Não em um sentido irresponsável, mas com a consciência de que o tempo é um recurso finito e precioso. É sobre abraçar o agora com toda a intensidade, responsabilidade e paixão.

Minha jornada, que se aprofundou na UTI e me levou a um patamar mais espiritual, reafirma a convicção de que a vida é um presente a ser plenamente vivido. Não importa o que a ciência ou a fé nos digam sobre o que virá, o agora é a nossa única certeza tangível. É em cada respiração, em cada projeto em Parintins, em cada troca com as pessoas, em cada contribuição que ofereço ao mundo, que encontro o verdadeiro sentido. Que a incerteza do "nada" nos impulsione não ao medo, mas à coragem de sermos inteiros, presentes e gratos por cada pulso de consciência que nos é dado.

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