O DONO DA FESTA É VOCÊ

Um Chamado aos Sócios de Garantido e Caprichoso

SOCIEDADE

Harald Dinelly

12/15/20254 min read

Quando a gente entra no Bumbódromo ou assiste pela televisão aquele espetáculo grandioso, é fácil se deixar levar apenas pela emoção da toada, pelo brilho das alegorias e pela garra dos itens. O amor pelo boi – seja ele contrário ou a favor – é o que move Parintins. Mas hoje eu quero ter uma conversa séria com você, que além de torcedor, é sócio. Você já parou para pensar que aquela festa mágica é, na verdade, uma indústria multimilionária gerida com a sua assinatura? Pois é, nos últimos anos, o Festival de Parintins deixou de ser apenas uma manifestação folclórica para se tornar uma potência econômica, e o dinheiro que entra nos cofres da sua associação precisa ser vigiado com o mesmo fervor com que defendemos nossas cores na arena.

Para você ter uma ideia do tamanho da responsabilidade que está nas mãos da diretoria que você elege, 2025 foi um ano de quebra de recordes financeiros. Não estamos falando de trocados para comprar cola e isopor, mas de dezenas de milhões de reais que caem na conta dos bois. Só para garantir que o espetáculo acontecesse, o Governo Federal e o Governo do Amazonas injetaram, juntos, R$20 milhões em repasses diretos. Somando isso aos patrocínios privados e às leis de incentivo, a estimativa é que mais de R$37 milhões tenham circulado para colocar os bois na arena. Dá uma olhada nessa tabela rápida que preparei para você visualizar o peso desse cofre:



E não para por aí. A vitrine de Parintins ficou tão valiosa que, em 2025, tivemos um recorde histórico de marcas querendo associar seu nome à nossa cultura. Foram 19 patrocinadores oficiais, sendo 16 da iniciativa privada, que ajudaram a bancar a festa. São gigantes como Coca-Cola, Brahma, Mercado Livre, Esportes da Sorte, Vivo, Natura, Azul Linhas Aéreas, Bradesco, Assaí Atacadista, Eneva, Samel, Bemol, Gree, Elma Chips, Cielo e Petrobras. Se essas empresas exigem retorno e profissionalismo, por que você, sócio, aceitaria menos do que isso na prestação de contas?

É aqui que entra o ponto mais delicado dessa conversa: a tal da "zona cinzenta". Enquanto o dinheiro público tem o Tribunal de Contas (TCE) fungando no cangote – e com razão –, existe uma fatia gigantesca da receita que depende quase que exclusivamente da sua fiscalização: a bilheteria. Recentemente, a justiça entendeu que o contrato dos bois com a Amazon Best (a empresa que vende os ingressos) é uma relação privada. Ou seja, o Estado não pode meter a colher diretamente ali. Isso coloca em você, sócio, um peso enorme. Com ingressos batendo R$4.800,00 e camarotes sendo vendidos a preço de ouro, é inadmissível ouvir que "faltou dinheiro" para pagar o artista do galpão ou a costureira. Você sabe quanto o seu boi realmente ganha com a venda desses ingressos? Qual a porcentagem real? Se o Tribunal não pode olhar esse contrato a fundo, você deve exigir olhar.

Felizmente, os ventos parecem estar mudando e as ferramentas para essa fiscalização estão melhores. As reformas estatutárias recentes, tanto no Garantido quanto no Caprichoso, não foram apenas burocracia; foram um grito de socorro e de amadurecimento. No Caprichoso, a modernização trouxe a urna eletrônica e a transmissão ao vivo das assembleias, escancarando as contas para quem quiser ver. Já no Garantido, a resposta às crises passadas foi endurecer o jogo: agora, a regra é clara para barrar o uso político da agremiação, impedindo que políticos com mandato disputem a presidência e fechando a porta para quem tem ficha suja.

E olha, essa vigilância dá resultado. Neste último ciclo de 2025, vimos algo que deveria ser a norma, mas que por muito tempo foi exceção: a aprovação tranquila das contas. O Garantido aprovou suas contas por unanimidade, um sinal vital de recuperação de credibilidade após tempos turbulentos, e o Caprichoso manteve sua regularidade administrativa. Mas não se engane, a aprovação na assembleia não pode ser um cheque em branco. Ela é o momento final de um processo que exige acompanhamento o ano todo.

Então, meu amigo torcedor, o recado é simples: não adianta chorar na arquibancada se a alegoria falhar ou se o boi entra "frio" por falta de pagamento. O desastre ou a glória na arena começam muito antes, na canetada do gabinete. Participe das reuniões, questione os contratos, entenda para onde vai cada centavo da Coca-Cola ou da bilheteria. O Boi-Bumbá é do povo, é nossa identidade, mas a conta bancária é gerida por quem você elege. Faça valer o seu amor e o seu título de sócio: fiscalize, cobre e esteja presente. O verdadeiro dono da festa é você.

Fontes:

  1. Governo federal repassa R$ 10 milhões aos bois do Festival de Parintins - amazonas atual, acesso a dezembro 15, 2025, https://amazonasatual.com.br/governo-federal-repassa-r-10-milhoes-aos-bois-do-festival-de-parintins/

  2. Festival de Parintins 2025: Governo do Amazonas realiza repasse de R$ 10 milhões aos bumbás Caprichoso e Garantido - Portal Cultura do AM, acesso a dezembro 15, 2025, https://cultura.am.gov.br/festival-de-parintins-2025-governo-do-amazonas-realiza-repasse-de-r-10-milhoes-aos-bumbas-caprichoso-e-garantido/

  3. Festival de Parintins movimenta R$180 milhões na economia com apoio da Lei Rouanet, acesso a dezembro 15, 2025, https://www.vivendodeshows.com/post/festival-de-parintins-movimenta-r-180-milh%C3%B5es-na-economia-com-apoio-da-lei-rouanet

  4. Garantido e Caprichoso recebem R$2,5 milhões da Coca-Cola para o Festival de Parintins, acesso a dezembro 15, 2025, https://edilenemafra.com/festival-de-parintins/garantido-e-caprichoso-recebem-r25-milhoes-da-coca-cola-para-o-festival-de-parintins/